terça-feira, 15 de dezembro de 2009

PERSONALIZANDO A VIDA!


Peço perdão. Sinceramente. Perdão, caro leitor por começar essa crônica, de certa forma... Falando mal de alguém. Falo de “X”, pessoa de minhas relações. Falo tranqüila, por que sei que ela provavelmente não lerá essa historiazinha. Afinal, ela nunca tem tempo para nada. Para ler essa crônica teria de contratar uma personal-leitora, que faria o serviço enquanto ela está na esteira. Ocorre que, visitou-me e após se retirar fiquei pensando sobre o quanto sua vida era sem sentido e desprovida de valor intrínseco. Pronto, falei! Cheguei a essa conclusão, após ela me contar sua rotina e de como é cheia de “personais”. E não falo de professores de educação física, isso é absolutamente ultrapassado, apesar de que, ela têm. Ela me relatara sobre os diferentes tipos de personal que precisara contratar para se encaixar no padrão que a sociedade estabelecera de uma mulher bem-sucedida.
Ufa! Só de escrever já fico cansada! Vocês já deduziram que ela é rica, ou pelo menos classe média alta... Esses luxos não se aplicam a nós, pobres mortais. A conversa iniciou-se com ela relatando-me que contratara uma “personal stylist." Contou-me que não tinha tempo de escolher as roupas que usaria no dia-a-dia e assim essa profissional, ia até sua casa, quebrava a cabeça montando os diversos trajes que ela usaria no mês e deixava tudo etiquetado e arrumado, com acessórios separados só para ela enfiar pela cabeça. Ainda por cima, comprava os itens que fossem necessários e adequava as suas medidas. Um sonho, né? Só que a “Personal stilyst” indicara uma “personal home”. Essa profissional, gabaritadíssima, pois, pelo seu relato, deduzi que era formada em curso superior, organizaria todos os armários de sua casa. Deixando tudo rotulado, separado e visível. Ou seja, acabaria com a bagunça do lar. Maravilhoso, não?
E por aí prosseguiu o seu relato. Contou-me que o filho ia muito mal à escola. Notas ruins, comportamento péssimo. Assim, contratara um “personal teacher” que ia até sua residência fazer as tarefas com o garoto e uma psicóloga. Que eu, com um toque de cinismo- não pude deixar de pensar, seria uma “personal mother”- para conversar com o garoto e descobrir o quê eu já deduzira: Ele estava carente de mãe. Presença física mesmo. Eu sei. Eu sei... Que estou sendo dura. Afinal, “x” trabalha muito e é uma referência no seu campo de atuação. Mas, comecei a achar que o preço disso tudo estava saindo muito caro...
Toquei no assunto e ela me falou que realmente, vinha gastando horrores, pois, na última semana tivera de contratar uma “personal Shopper”, para comprar os mantimentos no supermercado, produtos de limpeza e tudo o mais que fosse necessário para o bom andamento da casa. Afinal sua empregada (que não deixava de ser personal-maid) não podia fazer essas tarefas. E, para arrematar, contratara uma “personal dog”. Aí, eu assustei! Exclamei, “personal o quê?” e ela falou pausadamente: Dog. Essa profissional passa todos os dias em sua casa e leva os cachorros para passear. Além de uma vez por semana levar ao pet shop.
Despediu-se apressada, precisava remarcar o horário com sua “personal massagist” , que todos os dias passava em sua casa, levando uma maca portátil, para lhe aplicar uma massagem relaxante. Realmente. Era muita tensão! Senti-me uma roceira, mesmo! Quer dizer que para ter aquela aparência perfeita, carreira, marido, filhos exemplares, casa impecável, cachorros de revista, era necessário tudo isso? Será... Vamos raciocinar juntos, que não seria melhor ela simplesmente ficar um período no lar e ser um pouco mãe, dona-de-casa, etc. Relaxar cuidando de tudo o que lutara para construir. Quase sugeri isso, ainda bem que me contive! Com certeza ela me olharia horrorizada e me indicaria seu “personal analyst”. Esse último para fazer com que eu me enxergasse e enxergasse melhor o mundo em que eu vivo.

ELIANE BRITO, é escritora e advogada. eliane@rodovalho.com.br.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

AVATAR


A primeira vez que ouvi a palavra “avatar” foi na Índia. Intrigada com todas as manifestações do Deus Vishnu, que em cada localidade assumia uma personalidade e um nome diferente, busquei informações e descobri que eram diversos avatares. Para o hinduísmo, o avatar é a manifestação corporal de um ser imortal. Essa designação deriva da palavra sânscrita “avatara”, que significa “descendente”. Em uma tradução abrasileirada seria a encarnação de um Deus em forma humana ou animal. O que ocorre com Vishnu é que ele se encarna parcialmente em todos os seus avatares. Porém, tem uma peculariedade, este jamais participa do sofrimento humano, sob pena de perder seus poderes extraordinários. Para o cristianismo seria o equivalente a manifestação do espírito na matéria, gerando o nascimento. É incrível como a realidade virtual está sempre resgatando esses conceitos que transitam perdidos pela psique humana. Para o mundo moderno é o desenho ou a representação gráfica de uma imagem. De pessoa ou não, em um Chat de terceira dimensão ou no ciberespaço.
Criar seu próprio avatar é uma tendência e cada vez mais pessoas aderem à essa brincadeira. Várias redes sociais já disponibilizam esse aplicativo e os internautas se divertem com as estripulias de seus “seres imortais”. Não tenho dúvidas, se eu tivesse de escolher um avatar seria aquele que eu incorporava na minha infância: a mulher-maravilha. Até hoje me recordo do nome da atriz que interpretava o personagem, Linda Carter, e de seu semblante perfeito. Morena, de olhos azuis, vestida com aquela roupa recortada da bandeira americana (agora eu sei....) azul e vermelha, cheia de estrelas prateadas. Em minha imaginação de criança era o meu ideal de mulher perfeita. Justiceira. Certo aniversário ganhei de presente a fantasia da famosa heroína. Foi o melhor presente que já recebi na vida! Brinquei tanto, corri, saltei, lutei contra vários seres do mal, que só desisti da roupa, depois de muito choro, quando mamãe deu um sumiço nos farrapos que sobraram. De herança, fiquei com um saldo de um dente quebrado, após saltar de um muro de aproximadamente dois metros. Mas, o que importava isso? Eu era uma heroína! Eu salvava o mundo. Seria esse o objetivo de um avatar? Encarnar nossos mais altos ideais?
A internet é um mundo paralelo. As pessoas apenas reconstroem conceitos. Trabalham com antigos paradigmas e recriam sua realidade. Fica a imprensão de que tudo é novo, mas, na verdade é tudo um jeito diferente de contar velhas histórias. É uma divertida brincadeira que esconde uma face triste. As pessoas buscam a interação, um mundo mais seguro, valores antigos como amizade, romantismo e alguns princípios que já não estão mais em voga. Como não encontram no mundo real, viajam para seus mundos paralelos. Nesse mundo de avatares, não existe principalmente a morte (esse ser é imortal), não existe tristeza, fome ou fealdade. O mundo pode ser o mais belo que a imaginação conseguir criar. Nessa sociedade hedonista, abrimos mão de tudo que não seja absolutamente prazeroso e nos refugiamos no mundo maravilhoso do ciberespaço.
O chato é que a brincadeira uma hora acaba. Aí precisamos encarar nosso mundinho, finito, monótono e cheio de tragédias. Bom, se você quer um conselho, faça como eu: _Traga sempre seu avatar (aquele justiceiro, cheio de caráter, fé e amor), dentro dos bolsos de sua imaginação. E, sempre que a realidade permitir, deixe que ele se manifeste! É assim que lhe damos vida! Deixe que ele salve o mundo, as crianças carentes, as velhinhas, etc... Mas, que essa brincadeirinha fique somente entre nós... é segredo.

ELIANE BRITO é escritora, advogada, sócia da ONG “Fazemos o bem”. eliane@rodovalho.com.br

Germinando o milagre da vida!

Comprei uma revista que falava sobre os poderes maravilhosos dos sucos. Trazia uma receita especial sobre o “suco de grãos germinados”. Recomendava que, de preferência se pusesse para germinar a semente de trigo. Esse cereal, segundo a reportagem, reforçava nossas atitudes de persistência e coragem. Comprei a semente e fiz como ensinavam: coloquei de molho por oito horas, escorri, depois coloquei para crescer sobre uma vasilha de barro, repousando sobre um tecido de algodão cru. Reguei duas vezes por dia somente com água e aguardei.
Como foi mágico quando a semente germinou. As folhinhas, parecendo pequenas lâminas, extremamente verdes, começaram a aparecer em meio aos grãos e dia após dia se transformaram em minha lavourazinha particular. Lembrei dos trabalhos escolares, quando colocava o grãozinho de feijão para crescer em cima do algodão... Agora, sentia a mesma emoção novamente, observando meu pequeno milagre. Quando trazemos a natureza pra dentro de casa, mesmo com esses pequenos gestos, todos se envolvem. Minhas filhas acompanhavam o processo e me davam um relatório assim que eu entrava em casa. Tive até de chamar a atenção! Molhavam demais as frágeis plantinhas, correndo o risco de matá-las, por excesso de água.
Finalmente chegou o grande dia. Quando supus que já estavam de bom tamanho, anunciei: _ Vou colher um pouco dos grãos germinados para fazer o suco! Todas correram para a cozinha atentas ao processo. Tentei puxar as sementes e que surpresa! Estavam grudadas de forma firme no tecido. As raízes, tais quais pequenas ramas, se infiltravam pelas fibras, tendo o triplo ou mais de tamanho em relação às folhas. E eram resistentes. Puxei com força, mas não desgrudaram. Ficamos atônitas e maravilhadas (gente da cidade é boba mesmo!). Questionamo-nos se colocaríamos as raízes no suco e eu decidi rápido: _É claro. Têm muitas proteínas e nutrientes! Cortei uma porção cuidadosamente com a faca, lavei, coloquei no processador com maça, cenoura, limão, laranja, couve (rica em ferro) e alface (calmante e desestressante). Adocei com mel e coei. Parece ruim? _Ficou uma delícia! Por incrível que pareça, as meninas (que acompanharam o plantio) foram as primeiras a tomarem.
Descobri que esse suco é mágico mesmo! Não pelo suco em si, que alguns dizem que cura toda sorte de doenças. Mas, pelo processo do plantio, do cuidado, da preparação. Aprendi a observar o tempo das coisas. Aguardar que a natureza aja e esperar que as sementes brotem. Aprendi sobre o cuidado, sobre amor, regar com a quantidade certa todos os dias, aguardando com paciência que surjam os primeiros raminhos. Aprendi sobre raízes. Como elas se entranham e são resistentes. Muitas vezes observamos apenas a superfície das coisas sem olhar seu substrato. Aquilo que as sustenta. Aprendi um pouco mais sobre o trabalho paciente. As pequenas ações que parecem que não vão dar em nada, mas que, com um pouco de calma, transformam-se no milagre da vida. E de quebra, aprendi que as misturas mais inusitadas podem render bons sucos. Que é da diversidade que nasce os sabores mais incríveis. Saúde!

ELIANE BRITO é escritora, advogada, conselheira eleita da OAB-GO. eliane@rodovalho.com.br

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Na vida estamos sempre cercados pelo medo. É o medo da violência que cresce assustadoramente; É o medo da economia que parece que vai ter uma nova derrocada; É o medo dos radicais livres, terror de todas as mulheres; É o medo da gripe, de um acidente, qualquer fato aleatório que possa nos retirar da nossa tão amada e querida rotina. Para nós, intelectuais, o maior medo possível é o de dizer o óbvio... Tenho pavor de sentar aqui nesse computador e escrever exatamente o que lhe agrada, caro leitor.
Pode parecer pretensão minha, mas eu sei como atingir o seu coração. É só escrever textos “politicamente corretos”, sem usar um palavrãozinho, sem tocar em nenhuma minoria e tudo fica perfeito. Respeitar os assuntos tabus, e são tantos... Religião, política, sexo, autoridades, homossexualismo, etc. O problema é um só. Ficamos sem assunto, não é mesmo? Você aí do outro lado, quer pensar, quer provar novos conceitos, idéias, concepções que de alguma forma possam transformar a sua vida.
A nossa Carta Magna garantiu a ampla e irrestrita “liberdade de expressão.” Assim, por maldição ou escolha própria, não sei, decidi relatar a vidinha bem pacata e classe média dos meus concidadãos. Talvez a vida real, aquela que realmente valha a pena. Falo da dona-de-casa, da mãe, da executiva, dos trabalhadores, do homem médio, como diria o filósofo, do cidadão comum... Todos os dias bato papo com o porteiro do prédio, com a empregada que chega com o pão, com a vizinha, com as pessoas na rua. É impressionante como podem ser ricos esses diálogos. Como eles retratam e materializam nosso momento atual. O mundo em que vivemos.
E como é bom ser testemunha de seus medos e terrores. É o medo da carestia, medo da crise econômica, medo do fim do mundo. Medo de ir para o inferno (têm gente que ainda têm). E as expressões impagáveis que eles usam? Quem vai colocar nos jornais? Expressões como uma bastante utilizada por minha secretária: _Pelo sangue do cordeiro! E suas justificativas? Esses dias, após soltar essa pérola, bateu na boca e pediu perdão à Deus na mesma hora. Perguntei o motivo e ela me relatou que todas às vezes que soltava esse “caco” os anjos no céu caiam de joelhos no chão, com o rosto por terra.
Só a força da criatividade mesmo pra nos livrar da mediocridade sem fim do óbvio. É por isso que, quando digo que o meu maior medo é o de me render ao lugar comum de falar o esperado, entenda-me: Mesmo quando eu atingir algo que lhe é caro, não se assuste. Isso é uma celebração a diferença. Ao inexato. A revolução, que deve acontecer em nossas vidas todos os dias. São essas transformações que trouxeram (nós humanidade) até aqui.
Pode não ser um mundo ideal e não é. Pode não ser um mundo cor-de-rosa e não é. Mas é um mundo onde se briga pela liberdade. De cada um dizer o que quer, da forma que melhor lhe convém, sem censuras. Essa, a maior vitória do século XXI. E mais, de cada um, viver dentro do que acredita e com alguém observando e contando essa incrível história (nós escritores). Bem disse Voltaire: “Posso não concordar com nada do que você diz, mas daria minha vida para que você possa dizê-lo”.

ELIANE BRITO, é cronista, escritora e advogada. "Recusando-se a aceitar censuras!" eliane@rodovalho.com.br

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre ser forte, ter atitude e renovar!




Vamos admitir: O mundo está um tédio! Cansativo... E isso não é por falta de ideias para defender ou lugares para ir. É exatamente pelo contrário. Excesso de informação, de conceitos, de atividades. Começamos a sentir a escassez de algo bastante simples, como o tempo, por exemplo... Veio-me agora na cabeça a lembrança do coelhinho da Alice (aquela do País das Maravilhas), correndo de um lado para o outro, consultando seu relógio maluco e gritando que estava atrasado. Estamos sempre atrasados. Para tudo. Para acompanhar a gama de informações que circula na internet, teríamos que ficar conectados o tempo todo, acompanhar os fatos políticos, catástrofes etc. É um universo imenso que simplesmente não conseguimos absorver.
Vivemos a ânsia pelo novo, e isso pode ser perigoso. Explico. Perigoso porque na nossa sede de “estar por dentro” podemos cometer enganos, ter atitudes incoerentes, como, exemplificando (por comodismo mesmo), defender a bandeira da renovação em tudo. Essa atitude é bastante cômoda, porém traiçoeira, pois a mudança é importante e necessária, porém não podemos deixar de ter certeza de que realmente estamos mudando para melhor. Vivemos a era do marketing. A mídia pinta os quadros da mudança de uma forma tão bela que fica difícil não comprar as ideias que nos vendem. Tudo novo nos parece perfeito. É a era do consumo rápido em todas as coisas, relacionamentos, posições políticas, bens materiais etc. A expressão da hora é “zona de conforto”. Todos em bloco lutando para se libertar dessa famosa zona. Quem opta pela estabilidade, solidez de princípios pode incorrer na alcunha de retrógrado, ultrapassado. É nessas horas que gosto de ostentar meu título de rebelde! Enquanto todos lutam pela mudança para qualquer coisa ou qualquer lugar, caminho na direção contrária, busco a densidade e a solidez das grandes obras, dos grandes ideais, de quem trabalha direito e faz as coisas acontecerem de forma verdadeira e eficaz. Fazer o quê, se a rebeldia e a inteligência são traços marcantes do meu caráter.
É tudo uma questão de autoestima. Quem tem personalidade sabe que a atitude correta a tomar passa sempre por ter opinião. Por defender aquilo em que se acredita. Atitude é trabalhar com seriedade. Atitude é ter personalidade, dar a cara à tapa na certeza de que está fazendo a coisa certa. Renovar sim, com segurança, com fortaleza, sabendo que nunca devemos desprezar quem trabalha com amor e fé em prol dos semelhantes. Atitude é conservar o status quo. Renovar é manter tudo refrescado e novo exatamente como está, porque essa é a melhor saída. Coragem é entender que aventuras são muito interessantes em filmes e em livros, mas na vida da gente... Como é bem-vindo um pouco de paz e serenidade.Precisamos aprender com os orientais, que fazem isso muito bem, muitas vezes devemos nos abster de agir e nos manter firmes e conectados com nossas instituições e valores estabelecidos. E se a mudança ocorrer, que seja dentro das estruturas que já estão em pleno funcionamento. A rainha, no livro de Alice, disse a seguinte frase: “É necessário correr o máximo possível para ficar no mesmo lugar. Se você quer chegar a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais rápido do que isso”. Isso é atitude, isso é renovação, mas isso, acima de tudo, é ser FORTE!


Eliane Brito é escritora, cronista, advogada, membro da Chapa OAB-Forte (eliane@rodovalho.com.br)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A LOUCA DA CAMISOLA.


Todos os dias tudo se sucedia da mesma forma. Ela acordava por volta de seis da matina e preparava os dois filhos para irem à escola. A menina de aproximadamente três anos e o menino de cinco. Colocava os dois no banco de trás do carro, prendia o cinto no mais velho, sentava a menor na cadeirinha especial e dirigia apressada, como todas as mães na manhã. Até aí pareceria uma rotina normal... Pareceria... Porém, alguns fatos destoavam. Primeiramente, ela jamais conseguira ser aprovada no teste para retirar a carteira de motorista. Depois de inúmeras tentativas, simplesmente desistira da preciosa carta. E assim, dirigia o dia inteiro desautorizada. Outro fato realmente peculiar é que realizava esse ritual sempre de camisola. Isso mesmo! Do jeito que levantava da cama, jogava um penhoar desbotado por cima da roupa de dormir e iniciava o dia.
Esse fato já a tornara lendária no prédio onde morava. Os vizinhos que saiam no mesmo horário sempre a ajudavam a carregar toda a tralha, a meninada e a se estalarem no carro. Sempre que alguém comentava algum assunto relacionado a ela, para se confirmar à identidade, alguém mencionava: _Você está falando de quem? É a mulher da camisola? Pronto. A identificação estava feita.
Certo dia acordou da forma habitual, correria, rosto inchado, sacolas, chupetas, lancheiras, vizinhos segurando as crianças (enquanto ela penteava os cabelinhos no elevador), amarrava o penhoar, etc. Tudo normal. Mas, como diz a bandidagem: _ Um dia a casa cai! Dirigia calmamente, enquanto escutava as notícias no rádio, distraída, quando visualiza uma Blitz da polícia militar. O guarda faz sinal, arrogantemente, para que ela encoste o veículo. Ela abaixa o vidro e o policial, com cara de poucos amigos diz:
_Habilitação.
_Não tenho não, seu guarda. Quer dizer, está em casa...
Respondeu defensiva.
_Documentos do veículo.
Ela olha em volta e percebe que esquecera na correria a bolsa onde guardava o mesmo. Responde sucinta:
_Esqueci.
O guarda retruca:
_A senhora por gentileza queira descer do veículo.
Enquanto isso, a menina já começara a chorar em altos brados... Gritando a plenos pulmões. Mamãe!!! Mamãe!!!
Ela sem saída desce do veículo. O guarda perplexo fala:
_A senhora está de camisola!
Ela respondeu apenas:
_Pois é!
_Bem, sinto muito mais vou ter de apreender o veículo. Falou taxativamente enquanto começava a lavrar um termo no bloco de anotações.
Ela ainda argumentou, pediu, explicou que levava as crianças para a escola. Tudo em vão. O guarda impassível escrevia sem sequer olhar em seu rosto. Quando acabou de preencher o termo falou:
_A senhora, por gentileza assine aqui.
Ela nervosa assinou. Implorou novamente. Ele com cara de poucos amigos. Quando viu que não tinha mais jeito, entrou no carro, despediu-se dos filhos com um beijinho, desceu decidida e falou:
_Então, tá certo! Pela placa do veículo o senhor pega o meu endereço e entrega as crianças lá em casa, viu? Leve depois das cinco da tarde, porque agora eu vou trabalhar.
Falou isso enquanto virava as costas e começava a andar. O pobre policial ficou em estado de choque. Com a voz esganiçada, exclamou:
_Espere! A senhora vai embora e vai largar os seus filhos aqui?
Perguntou chocado.
Ela respondeu:
_É claro! Eu moro a uns dez quarteirões daqui. Estou sem bolsa, sem dinheiro e sem carro, de camisola e com duas crianças. O senhor acha que eu vou caminhar, uma distância dessas, carregando esses bebês? De jeito nenhum. O senhor os entregue lá em casa depois...
O policial começou a correr atrás dela desesperado, gritando:
_ Calma! A senhora não pode fazer isso...
Ela parou com as mãos na cintura e perguntou?
_O quê o senhor sugere?
Ele já contemporizando falou:
_Vamos fazer assim... a senhora me promete que não sai mais sem habilitação e eu vou lhe liberar o veículo. Ela ainda pensou uns segundos antes de concordar.
_O. K! O senhor encontrou uma ótima saída.
Cumprimentou-o.
O policial lhe devolveu as chaves, ela se despediu com um aceno rápido enquanto se afastava.
Por incrível que pareça nunca chegou uma multa em sua casa.

ELIANE BRITO é Cronista, Escritora e Advogada. eliane@rodovalho.com

ADVOGANDO COM PAIXÃO!


Os dados não são exatos, porém, demonstram que as mulheres advogadas superam em quantidade o número de homens. Na prática, poderia ser ainda mais expressiva a presença feminina na militância jurídica. Presença real, pois, muitas mulheres ostentam a carteirinha dessa entidade poderosa, como um troféu, um luxo que carregam na bolsa. Muitas se dedicam a outras atividades, enquanto mantém essa porta aberta, como uma possibilidade remota. Para o caso de resolverem advogar no futuro...
Por outro lado, vemos mulheres brilhantes, fazendo a opção pela estabilidade de um cargo público, em detrimento dos desafios e incertezas do dia-a-dia de uma advogada. Mesmo quando guerreiam na advocacia pública, sofrem as limitações inerentes à função. Sejamos honestos: Advogar não é fácil. Seja para qual sexo for. Porém, a situação da mulher no mercado de trabalho é agravada por diversas influências aleatórias, diferentes das experimentadas pelos homens. E, o nosso constituinte já sabia disso, quando erigiu à categoria de princípio constitucional a dignidade da pessoa humana. Em sua exposição de motivos, trabalhou com a máxima de que devemos tratar a todos com igualdade “e os desiguais na medida de suas desigualdades.”

Sejamos ainda mais honestos: As mulheres são diferentes; procriam, trazendo seres ao mundo que precisam ser amamentados, cuidados e formados; administram lares, escritórios e por aí vai... A lista de tarefas de uma mulher é imensa. Para coroar tudo, ainda são as estrelas principais do show, quando atuam no palco da justiça. Quantas e quantas vezes ficam ouvindo piadinhas machistas pelos corredores do fórum, fazendo um ar blasé, com a cabeça fervendo com tantas responsabilidades... Isso enquanto se equilibram em scapins altíssimos, envelopadas em saias justíssimas (tudo pelo decoro jurídico).
Se o mundo fosse justo -o que eu já descobri que não é- seria respeitada a resolução do órgão especial do Tribunal de Justiça de Goiás, garantindo o direito das advogadas de trabalharem com a mais democrática das roupas: Calça jeans! E um belo par de tênis nos pés! Isso sim é retidão. Mesmo que a regra exista, sabemos que na prática costumeira, é inviável... Para piorar, correm desengonçadamente pelos corredores da justiça, enquanto carregam computador de mão, celular e outras parafernálias, que ajudam a controlar filhos, marido, clientes, etc. Haja fôlego!
Ainda bem que contam com a OAB. A ordem tem atuado de forma implacável na defesa dos direitos e prerrogativas das advogadas. Através de ações concretas, tem garantido a dignidade e o respeito no exercício da profissão. Isso, de certa forma, tem contribuído para que mais mulheres optem pelo exercício da advocacia.
Apesar dos pesares confessemos: É emocionante advogar. Quando se adentra o escritório e a secretária eufórica balança uma decisão na sua frente e exclama; _ liminar! Ou, outro fato qualquer, esquece-se todos os contratempos. Sente-se o gosto doce da vitória. O prazer de realizar um trabalho digno e que gera frutos. A satisfação é o sentimento remanescente. É uma profissão instigante, que coloca o profissional em contato com pessoas de diferentes atividades, com atuação em múltiplos ramos da sociedade civil.
Para melhorar, ainda é uma profissão que não mantêm a advogada presa dentro de quatro paredes (pelo menos o tempo todo). Se ganha mobilidade, o que é estimulante mentalmente. Propicia um conhecimento profundo da alma humana, de suas mazelas e dores. Arrematando, é gostoso saber que se pode contar com uma entidade de classe forte e atuante. Que nos supre com a o respaldo, aliado a força necessária para trabalhar e ter sucesso! Se você é mulher e têm esse pequeno luxo (a carteirinha...) na sua bolsa, venha, advogue, faça sua vida bem mais apaixonante!

ELIANE BRITO é escritora, advogada, membro da Chapa OAB FORTE.
eliane@rodovalho. com.br. Artigo publicado no DM do dia 25/10/2009