segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

AVATAR


A primeira vez que ouvi a palavra “avatar” foi na Índia. Intrigada com todas as manifestações do Deus Vishnu, que em cada localidade assumia uma personalidade e um nome diferente, busquei informações e descobri que eram diversos avatares. Para o hinduísmo, o avatar é a manifestação corporal de um ser imortal. Essa designação deriva da palavra sânscrita “avatara”, que significa “descendente”. Em uma tradução abrasileirada seria a encarnação de um Deus em forma humana ou animal. O que ocorre com Vishnu é que ele se encarna parcialmente em todos os seus avatares. Porém, tem uma peculariedade, este jamais participa do sofrimento humano, sob pena de perder seus poderes extraordinários. Para o cristianismo seria o equivalente a manifestação do espírito na matéria, gerando o nascimento. É incrível como a realidade virtual está sempre resgatando esses conceitos que transitam perdidos pela psique humana. Para o mundo moderno é o desenho ou a representação gráfica de uma imagem. De pessoa ou não, em um Chat de terceira dimensão ou no ciberespaço.
Criar seu próprio avatar é uma tendência e cada vez mais pessoas aderem à essa brincadeira. Várias redes sociais já disponibilizam esse aplicativo e os internautas se divertem com as estripulias de seus “seres imortais”. Não tenho dúvidas, se eu tivesse de escolher um avatar seria aquele que eu incorporava na minha infância: a mulher-maravilha. Até hoje me recordo do nome da atriz que interpretava o personagem, Linda Carter, e de seu semblante perfeito. Morena, de olhos azuis, vestida com aquela roupa recortada da bandeira americana (agora eu sei....) azul e vermelha, cheia de estrelas prateadas. Em minha imaginação de criança era o meu ideal de mulher perfeita. Justiceira. Certo aniversário ganhei de presente a fantasia da famosa heroína. Foi o melhor presente que já recebi na vida! Brinquei tanto, corri, saltei, lutei contra vários seres do mal, que só desisti da roupa, depois de muito choro, quando mamãe deu um sumiço nos farrapos que sobraram. De herança, fiquei com um saldo de um dente quebrado, após saltar de um muro de aproximadamente dois metros. Mas, o que importava isso? Eu era uma heroína! Eu salvava o mundo. Seria esse o objetivo de um avatar? Encarnar nossos mais altos ideais?
A internet é um mundo paralelo. As pessoas apenas reconstroem conceitos. Trabalham com antigos paradigmas e recriam sua realidade. Fica a imprensão de que tudo é novo, mas, na verdade é tudo um jeito diferente de contar velhas histórias. É uma divertida brincadeira que esconde uma face triste. As pessoas buscam a interação, um mundo mais seguro, valores antigos como amizade, romantismo e alguns princípios que já não estão mais em voga. Como não encontram no mundo real, viajam para seus mundos paralelos. Nesse mundo de avatares, não existe principalmente a morte (esse ser é imortal), não existe tristeza, fome ou fealdade. O mundo pode ser o mais belo que a imaginação conseguir criar. Nessa sociedade hedonista, abrimos mão de tudo que não seja absolutamente prazeroso e nos refugiamos no mundo maravilhoso do ciberespaço.
O chato é que a brincadeira uma hora acaba. Aí precisamos encarar nosso mundinho, finito, monótono e cheio de tragédias. Bom, se você quer um conselho, faça como eu: _Traga sempre seu avatar (aquele justiceiro, cheio de caráter, fé e amor), dentro dos bolsos de sua imaginação. E, sempre que a realidade permitir, deixe que ele se manifeste! É assim que lhe damos vida! Deixe que ele salve o mundo, as crianças carentes, as velhinhas, etc... Mas, que essa brincadeirinha fique somente entre nós... é segredo.

ELIANE BRITO é escritora, advogada, sócia da ONG “Fazemos o bem”. eliane@rodovalho.com.br

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