quarta-feira, 15 de outubro de 2008

COMUNICADO AOS HOMENS DE PLANTÃO



Duas mulheres têm monopolizado a mídia nos últimos tempos. Nos Estados Unidos, Sarah Palin, vice de Jonh Mac Cain. No Brasil, Martha Suplicy, candidata a prefeita de São Paulo. O que essas mulheres têm em comum? Sarah Palin é chamada de “Pit Bull de batom” e Martha, apesar de não ter uma alcunha específica, coleciona um monte de nomes, alguns melhor até não mencionar. Diríamos que ela não é nenhum poodle cor-de-rosa...
Essas mulheres apresentam um traço de personalidade, que nos últimos tempos tem se reforçado cada vez mais no sexo frágil. São agressivas. Atacam quando necessário. Essa era uma característica tipicamente masculina que agora incorporamos de vez ao nosso cardápio.
Sem dúvidas, a agressividade moderada é uma mola para o sucesso. Mecanismo amplamente utilizado pelo sexo masculino, adotado abertamente por nós. Em se tratando de mulheres, aprendemos a nos calar, a ignorar os ataques. Esse mimetismo nos possibilitou a permanência nesse planeta. Segundo os biólogos é uma estratégia bem sofisticada de sobrevivência. Os animais fazem isso. Misturam-se, camuflando-se em meio à folhagem, para sobreviver. Porém, chega uma hora em que a fome fala mais alto. Precisamos comer um “ pedaço do bolo” e aí...é deixar a adrenalina circular nas veias e partir para o ataque.
Para isso contamos hoje com uma série de direitos e garantias que nos garantem o suporte. São leis constitucionais ou não... Que sacramentaram a igualdade entre os sexos. Nos situaram no mundo em bases sólidas. Além disso, o aumento da inserção da mulher no mercado de trabalho, a grana no bolso, ajudaram a clarificar algumas questões. Estamos mais livres, para sermos quem realmente somos. Como todo ser humano, portadoras do doce, mas também do sal que tempera o mundo.
Historicamente, a mulher sempre foi capaz de atos de crueldade extremada. Gilberto Freyre, em seu livro “Casa Grande e Senzala”, dedica um capítulo a explicar os atos sádicos praticados pelas “sinhazinhas”. Estas, enjeitadas pelos maridos, decidiam aplicar castigos terríveis as mucamas, que lhes atrapalhavam a paz doméstica. Os compêndios de Direito Penal, são ricos em exemplos de crimes, com “requintes de tortura”, praticados por mulheres.
A realidade nos mostra que, tudo que é reprimido, cresce de forma lenta e gradual, até explodir por algum meio incontrolável. Se Sarah Palin foi capaz de deixar o filho com Síndrome de Down (cinco dias após o parto) aos cuidados de outros, para retornar ao trabalho... Se Martha Suplicy coloca o dedo na cara de Kassab e pergunta: “Você é casado?”. Argüindo de forma tácita... Qual o seu posicionamento perante a vida? Para isso rompendo com a “educação” e a “classe”, que os homens esperam de uma dama. Tudo é possível!
Aos homens de plantão digo apenas; tomem cuidado! Se formos atacadas, reagiremos. Acabou-se a era da camuflagem. Se a vida fosse um jogo de cartas, eu diria que as cartas estão na mesa. E o resultado pode não agradar a todos...

ELIANE BRITO é escritora e advogada eum pouquinho agressiva.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O Poder dos Rituais


São seis horas da manhã. O celular desperta para um novo dia. Acordo e começo o ritual diário matinal, que eu e todos os especialistas em longevidade e saúde me impuseram. Escovo os dentes, saúde bucal é um dos itens recomendados pela OMS, indispensável a uma vida saudável. Arrasto meu tapetinho para a prática de Yôga até a sala e bocejando, sento-me para meditar. Outra recomendação, para uma vida equilibrada e feliz. Após 10 minutos de tentativas consigo meditar por alguns segundos. Depois pratico Yôga por meia hora. Alongo e estico meu corpo, atividade que me garantirá alguns anos a mais.
Dirijo-me então, para a cozinha para preparar o café da manhã, que, no caso,consiste em um poderoso suco. Segundo o livro “A cura através dos sucos” eles podem fazer milagres! Seleciono uns seis tipos de frutas; um preparado, que leva linhaça, castanha, soja; adiciono açúcar diet derivada da cana (que é mais saudável, por não conter aspartame) bato tudo e bebo, visualizando que estou ingerindo partículas de saúde pura. Uma cápsula de guaraná em pó, outra de chá verde e sigo para o banho.
Na ducha, lembro-me de “O Segredo”, livro que me ensinou sobre a “lei da atração" e então, procuro visualizar um dia produtivo e feliz, com todos os objetivos perfeitamente alcançados. Segundo esse livro, a visualização é a chave para o sucesso. Devemos sempre mentalizar coisas positivas que acabarão se manifestando na nossa vida. Antes de sair de casa, faço uma rápida oração. A fé, já está provada, ativa neurônios adormecidos no cérebro, despertando áreas ainda desconhecidas. Quem tem fé, vive mais e adoece menos. Leio o salmo 91 em voz alta, essa uma recomendação de minha mãe... Esse salmo poderoso, segundo ela, nos guarda de todos os perigos. Sentada em frente ao computador, fico feliz e relaxada, pois quem trabalha, corre menos risco de desenvolver doenças degenerativas, tipo Azheimer. O trabalho mantém nossa mente alerta e a memória aguçada. Na hora do almoço, concentro-me no prato de salada, riquíssimo nos vários tipos de folhas e vegetais que devo ingerir. Mentalizo a luz verde, que representa poder físico.
No final da tarde, munida de uma garrafinha de água, líquido precioso que devo beber no mínimo dois litros por dia, para garantir uma boa saúde e três se não quiser ter celulite... Sigo para a academia de ginástica. Outra prática terrivelmente recomendada pelos médicos e afins, que previne a osteoporose, garante mais disposição, afasta depressões, etc. O exercício físico libera endorfinas, que agem como um verdadeiro antidepressivo.
Tudo estava indo bem. Cumpria meu programa direitinho. Encontro com amigas da ginástica, “amizade é outro item importante”. Foi então, que o dia saiu totalmente do esquema. Uma delas me chamou para tomar um chopinho, em um barzinho do outro lado da rua. Pensei: “é... já está provado que o álcool, em doses pequenas é um verdadeiro remédio, combate a hipertensão, etc..”. Concordei, falando categórica: “vou tomar só um!” Depois do quinto chope, já totalmente rebelada contra o sistema, comecei um discurso contra o poder dos rituais na nossa vida... Falei que o que importava mesmo era ser feliz! Estava cansada das imposições dessa mídia cruel, que tentava nos encaixar em um padrão de beleza totalmente surreal. Impondo rituais stressantes. Minha amiga apoiava. Ainda argumentou. “Eu quero que essa sociedade se exploda!” Frase com a qual eu concordei prontamente, pedindo um novo chope.
Bom, hoje estou aqui, iniciando um outro dia. Ai! Cabeça latejando, escrevendo esse artigo para me livrar do remorso. Já tomei meu suco desintoxicante. Rico em vitamina C. Já Pedi perdão a Deus. O importante é recomeçar dizem os especialistas...

Eliane Brito é escritora e advogada.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

AMOR NO CIBERSPACE


Vivemos a banalização da expressão “eu te amo”. Hoje os amigos se despedem com um: “então tchau, te amo...” Os pais dizem te amo” à todo momento aos filhos. E por aí vai... Será que isso demonstra que há mais amor no mundo ou ao contrário, que o desamor é tão grande que expressões como essas já não têm a devida importância...?
Quando alguém diz que nos ama, de verdade, dói. Dói por que temos de confrontar com os nossos fantasmas. De autodestruição, auto-sabotagem e o pior de todos, da baixa auto-estima. Todos esses “autos” permeiam nossas vidas sem que percebamos. Eles se infiltram em nosso cotidiano e são alimentados por uma sociedade extremamente competitiva, que nunca nos enxerga como bons o suficiente. Então, quando farejamos que essa expressão está sendo dita verdadeiramente, entramos em pânico. “ama como”?
“que pessoa corajosa”, “eu não mereço”...
Que peso para a alma! Cria-se um estranho paradoxo: “ E agora? Sou amado...logo eu." Segundo nossa gramática, “amar, verbo intransitivo”, não necessita de complementos (adjetivos, substantivos, etc.). É uma expressão completa em si mesma. Nos remete ao infinito. E tem de ser incondicional, senão não é amor.
Jesus disse: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Para se amar verdadeiramente é preciso estar completo. É preciso se respeitar, respeitar o outro e principalmente, não se sabotar, nem se autodestruir. É preciso olhar no espelho e assumir que: “é, sou uma pessoa legal, gente boa, inteligente, esperta, tenho charme, tal...” Então, que venha o amor!
Vivemos, porém, em uma sociedade dominada pelo computador. Com as comunicações cada dia mais ágeis, via MSN, Orkut, E-mails, etc. As palavras transitam no ciberspace com a velocidade do pensamento. Elas perdem poder. Banalizam-se. Vejo isso como uma fuga. Precisamos banalizar para aceitar o peso que elas carregam. É preciso banalizar para aceitar a frieza dos relacionamentos, sua inconsistência.
Precisamos banalizar para aceitar que estamos sós. Perdido no mundo virtual usufruindo de uma falsa segurança. Envolvidos pela doce proteção que existe só no mundo dos sonhos. O duro é encarar a realidade, encarar que somos humanos, cheios de falhas, fraquezas, mas, temos dentro de nós a semente do divino. “Deus está dentro de nós”.

Meu pai só me disse que me ama duas vezes... E eu, meio maluca, acreditei. Com certeza acreditei, porquê ele conhece a extensão e o peso dessas palavras. Por favor, quando alguém te disser que “te ama”, faça um favor a si mesmo, aceite e responda apenas “obrigado”. A única resposta cabível.

Eliane Brito é escritora, advogada e muito amada...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sete vidas



Dias atrás, em um agradável almoço com minhas filhas, a conversa encaminhou-se para todas as vezes que já havíamos visto a morte de frente. Brincaram que eu tinha sete vidas e eu concordei que já havia gasto uma. Uma delas rememorou seu nascimento prematuro e o fato de que poderia não estar ali. Outra se lembrou de um choque elétrico, tomado aos cinco anos de idade. A terceira de uma cirurgia mal-sucedida...
Quanto a mim, falávamos de um grave acidente de carro que sofri, anos atrás. Contudo uma lembrança se insinuou e voltou nítida a minha memória. Já havia me esquecido totalmente desse fato, mas, naquele momento, tive a certeza de que aquela foi a vez, em que eu vi a morte de frente. Exclamei:
_Não, só tenho cinco vidas, já gastei mais uma!
Tive um breve namoro com um rapaz, duas semanas de duração, que residia no mesmo edifício que eu. Quando terminei o relacionamento, X (vamos chamá-lo assim...) começou uma verdadeira caçada à minha pessoa.
Seguia-me pelas ruas, aparecia em todos os lugares onde eu estava, mandava recados, flores, etc. Quando percebeu que eu estava firme em meu propósito, começou a fazer ameaças de todos os tipos, que eu inconseqüentemente ignorava.
Certo dia, porém, estava sozinha em casa, quando toca a campainha. Abri despreocupadamente a porta e X invadiu o apartamento. Tentei argumentar, explicar minhas razões, mas, ele estava transtornado. De repente, sacou de uma arma e começou a andar de um lado para o outro, brandindo-a em todas as direções. Falou que poderia me matar ali, naquela hora e que tudo estaria resolvido.
Não sei por que, mas, senti uma indignação tremenda com aquela situação. Uma raiva imensa me dominou. Comecei a desafiá-lo: “ _Então mata agora! Exclamava batendo no peito._aproveita e mete uma bala na sua cabeça também!” Naquela hora, eu não tinha medo de nada. Como todo adolescente, me julgava imortal.
Essa cena dantesca continuou por alguns minutos, quando ele se aproximou e encostou a arma na minha cabeça. Se eu tivesse morrido ali, posso assegurar, não teria sido com medo. Em situações de tensão, todas elas, eu fico estranhamente calma.
Fui salva pelo meu irmão (que morava comigo) retornando de uma missa. Ele agiu com firmeza e decisão. Falou a X com autoridade, conseguindo colocá-lo para fora. Ligou então, imediatamente para um tio meu, que era da polícia, relatando o ocorrido. Esse tio procurou X e lhe deu provavelmente um bom “aviso”, desses que só policiais podem dar. O que fez com que X me deixasse em paz.
Relatei tudo isso a minhas filhas, que a essa altura já estavam boquiabertas. As três então se levantaram e me abraçaram. A caçula exclamou, com voz chorosa:_ “ Mãe, você poderia estar morta!”
Hoje, do alto da minha maturidade, percebo o quanto fui inconseqüente, desafiando-o naquele momento de tensão. O quanto às emoções são delicadas, especialmente o amor, ou, nesse caso, as paixões e como merecem um cuidado de nossa parte. Amor não se impõe. Absolutamente. Simplesmente acontece. Percebo também que Deus, com toda certeza me protegeu naquela hora. Tenho que concluir que ele tem algum propósito para mim. Uma missão que só eu posso desempenhar. E é por isso que estou aqui.

Eliane Brito é escritora, advogada e uma sobrevivente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Unidos pelo afeto


Segundo as estatísticas do IBGE, nunca se desfizeram tantos casamentos. Estamos na década provavelmente, em que mais mulheres se descasaram. A sociedade liberta dos padrões rígidos de antigamente, já não sanciona com gravidade essa mulher. Antigamente romper com esse vínculo era sinônimo de humilhações, preconceitos e segregação. Há uma ou duas gerações passadas, a mulher que optasse por essa medida sabia que iria enfrentar uma via crúcis, para se reestruturar e garantir algum respeito. Tudo isso mudou, os ares libertários dos anos sessenta atingiram essa instituição milenar, aceitando que as pessoas devem ser livres em suas escolhas.

Podemos destacar algumas mudanças que impulsionaram essa “popularização do divórcio”. A primeira seria a igreja, que já não exerce a força repressora de antigamente. Não que ela se posicione favorável à separação... Mas, paulatinamente as idéias cristãs vêm perdendo espaço. No mundo moderno, as pessoas já não levam tão a sério assim as “penas do inferno”, então, todos os fantasmas que aterrorizavam as mulheres vão se transformando em fumaça. Outra importante mudança foi o aumento gradativo da participação da mulher no mercado do trabalho. O dinheiro é uma força, capaz de mover o mundo e transformar realidades. Cria novas oportunidades, descortina novos horizontes. A mulher do século XXI, com sua independência garantida pelo contracheque, tem aturado cada vez menos desaforos.

O direito tem acompanhado essa tendência. A desinstitucionalização do casamento é uma realidade no direito de família. Leis garantem uma maior celeridade nos processos de divórcios, que hoje podem ser feitos até em cartórios (Com algumas ressalvas em caso de filhos menores, etc.) Aplica-se atualmente no contrato de casamento, o mesmo princípio aplicado aos demais contratos, do “Affectio”, que é igual à vontade, querer, desejo de ficar juntos. A lei entende que o que deve unir um homem e uma mulher é a afeição, o objetivo de se construir um lar. A dignidade também é um valor que deve ser preservado e ser a garantia máxima de ambas as partes.

Mas, como tudo, a onda de separações traz em seu bojo o bem e o mal. Não podemos esquecer que nem tudo é festa! Todo rompimento carrega consigo mudanças e transformações. Dolorosas, mas necessárias para se alcançar uma melhor qualidade de vida. Nessa hora o direito também nos socorre, quando classifica as separações em muitos casos como “remédio legal”. Muitas vezes para uma relação doentia e neurótica, a prescrição mais apropriada deve ser esse remédio radical chamado divórcio. Que mata o vírus do desamor e das brigas, para deixar florescer a paz e a serenidade.


Eliane Brito é escritora e advogada. Nesse artigo, mais advogada que escritora...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Viva a contra-revolução!



O papel feminino tem mudado ao longo dos anos. Com o advento da revolução industrial e a pílula contraceptiva, sabemos que o modelo feminal conhecido até então foi modificado. Surgiu uma nova mulher, mais independente, mais atarefada e... mais doente. Ultimamente várias mulheres com que tenho conversado estão com algum tipo de enfermidade. Problemas como: depressão, síndrome do pânico, arritmia cardíaca, labirintite, herpes labial. A lista é extensa. Grande como os males modernos. Essa é a época de ouro das mulheres. Temos tudo pelo qual lutamos. Temos trabalho, dinheiro, independência e um pouco mais de respeito. Sustentamos lares, podemos casar e descasar, modificamos nossos corpos ao bel prazer. Estamos mais bonitas, mais livres, mais ricas, então, o que deu errado?

Os orientais vêm o mundo dentro de uma dualidade. Ying e Yang. O princípio masculino, ativo, agressivo e o feminino, passivo, fluído. Todos nós temos essas duas forças atuando em nosso organismo. Porém, no caso feminino, deve predominar a energia Yang, mais sutil, mais maleável, intuitiva. Quando negamos nossa essência, as características marcantes da nossa personalidade e de nosso DNA, geramos um desequilíbrio que precisa ser compensado. A natureza então, faz seu trabalho de ordenamento, de busca do equilíbrio perdido. E muitas vezes a doença é uma etapa para a cura.

Toda conquista implica em ônus e responsabilidades. O que deu errado é que esquecemos que havia um preço a ser pago. Stress, doenças, pressão psicológica, responsabilidades triplicadas. Parece que nosso traço mais marcante, chamado sensibilidade feminina está se rebelando contra o sistema. Não suportando a pressão, nosso organismo reage e transforma essas agressões externas em doenças.

Assistindo ao programa Saia Justa do GNT, a apresentadora explicava que, segundo os psicólogos, quando nos deparamos com um problema temos basicamente quatro alternativas: Mudar; aceitar; negar ou sofrer. Pelo jeito a mulher moderna não mudará nada no modelo construído a partir do dia em que se queimou o primeiro sutiã. Continuará em movimento retilíneo uniforme, vestindo a máscara de “super poderosa”. E, como das alternativas acima, escolheu a última, continuará sofrendo...

Viva a contra-revolução! Devemos recuar um pouco. Reaprender a dividir responsabilidades. Criar nossos filhos com o pai do lado (se for possível); dividir as contas ou deixar que alguém as pague; aceitar que nos abram a porta do carro; chorar quando receber flores; vestir um vestido bonito e sair por aí. Após tantas batalhas, podemos relaxar um pouco no controle. Não... Não vamos perder tudo o que conquistamos. Vamos apenas, fazer uma pequena correção na rota e resgatar muitas coisas boas que se perderam no caminho. Lembrar-nos que somos mulheres sensíveis, amorosas, delicadas e precisamos de um pouco de mimo. Faz parte do nosso charme. Eu, pelo menos, adoro ser mimada.

Eliane Brito é escritora, advogada e muito, muuuuito mimada!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Impotência e Coragem



Lendo os jornais do dia, a sensação que nos domina é a impotência. Um pai estava estampado na primeira página, chorando a morte do filho de três anos, baleado por policiais. Assassinatos, bombas, dá até para sentir o cheiro de sangue. O sentimento é de inutilidade e frustração. O que cada pessoa comum, em sua individualidade, pode fazer para mudar o mundo? Será que existe realmente uma chance de transformação?! Será que podemos fazer algo para conter esse trem desgovernado chamado ser humano? A vontade é ficar inerte. Desistir da luta. Simplesmente assistir a evolução dos fatos, o desenrolar dos acontecimentos, sem tomar nenhuma resolução.
Meditando sobre esse assunto, abri o livro indiano Mahabarata, no seu poema clássico, chamado em português de “canção celestial” e em indi de Bhagavad-gita. Consultei aleatoriamente e li a seguinte frase “Se não lutares a batalha da vida porque teu egoísmo te faz temê-la tua resolução é vã: a natureza se te imporá”. Fechei imediatamente o livro um pouco envergonhada. A resposta havia sido rápida e certeira. Decifrara o meu sentimento perante as manchetes. Egoísmo. Vontade de ficar aparte. Transformar o coração em um bloco de pedra e fazer de conta que nada está acontecendo. Seria essa a saída? Não. É preciso fazer algo! Nem que seja protestar... Quando o livro sagrado hindu nos diz que a natureza nos imporá, faz uma verdadeira profecia. Se não nos posicionarmos e lutarmos para de alguma forma mudar o mundo, os atos de violência, mais cedo ou mais tarde vão nos alcançar. Essas atrocidades podem acontecer dentro de nossas casas, com pessoas da nossa família e aí será muito tarde...
Outra violência exaustivamente explorada pelos jornais é o despreparo e a falta de comprometimento dos políticos com os ideais do povo. A imprensa tem feito sua parte, divulgando, escândalos, processos, etc. Mas, nós temos nos omitido. Temos ficado surdos perante os avisos recebidos. E, quando não recebemos os serviços públicos que merecemos, inclusive segurança pública, nos quedamos impotentes. Como se nada pudesse ser feito. Quanto as minhas escolhas políticas e pelo menos quanto a essas eu posso fazer alguma coisa. Munida do meu pequenino título eleitoral, posso fazer uma escolha. Gritar em alto e bom som: _ Eu sou uma cidadã, sou brasileira e mereço respeito! “Uma andorinha só não faz verão”, mas milhares... Podem fazer uma grande diferença. Milhares de andorinhas podem mudar o mundo. Esse discurso é antigo e eficiente! Foi ele que patrocinou a revolução francesa, foi ele que garantiu que tivéssemos eleições democráticas, acabando com a ditadura. Foi ele que fez todas as grandes mudanças populares no mundo e é ele que eu quero ressuscitar.
As eleições municipais estão se aproximando. Estamos tendo mais uma oportunidade de elegermos pessoas sérias, comprometidas com os valores nobres da humanidade. Não sei quanto a você... Eu não vou me omitir. Vou votar! E vou tentar votar direito. Quero saber quem são os candidatos, o que eles fazem o que eles acreditam. E principalmente, quero em silêncio, olhar dentro dos olhos desses cidadãos e perguntar... Quais são os seus propósitos? O bem comum ou seu próprio interesse? O meu coração vai me dar à resposta. E dessa vez eu vou acreditar nela.
Essa saída pode parecer simplista, infantil, ridícula. Mas é com um simples ato como esse, de escolher e votar, que outorgamos mandatos a pessoas, mudados suas vidas, lhes damos a chance de fazerem algo pelo seu semelhante e pelo seu país. Eu valorizo cada ato que pratico. E esse para mim tem muito valor. Pois, como uma pequena engrenagem em uma grande máquina, o voto dispara o gatilho que leva a eleição de alguém lá do outro lado. É pouco. É. Mas, ficar impotente é uma saída covarde. Eu escolho a coragem.
Eliane Brito é escritora, advogada e está tirando a poeira do título de eleitor.( Crônica publicada com cortes, no jornal "O Popular" do dia 23-07-08).