
Finalmente entendi. Quando viajo, o que realmente me atrai não é a paisagem diferente, as pessoas, as comidas, nada... O que me atrai de verdade é a possibilidade de ficar sozinha comigo mesma, rever minha vida, entender alguns pontos. Fico imaginando, como era, quando as pessoas perdiam meses viajando de navio ou carruagem, para chegarem a algum destino. Devia ser maravilhoso, ficar dias sem fim, meditando (essa é a palavra), pensando, enquanto se olhava para o espaço. Nesse mundo atribulado em que vivemos, sentimos necessidade de alguns momentos de introspecção. E, pelo menos para mim, uma viagem_ durante o percurso_ me proporciona essa higiene mental. Depois, desse mergulho intenso e profundo dentro de mim, sempre volto diferente. Finalmente entendo coisas que me negava a ver. Finalmente, descarto sensações que já estão até gastas de tão ultrapassadas. Foi assim, na minha última viagem.
Sobrevoava a Bolívia. Sempre peço um assento junto à janela, para poder observar alguma coisa da paisagem, ou simplesmente, olhar as nuvens que flutuam no céu. Mas, nesse dia o tempo estava aberto, céu azul, sem nenhuma nuvem, mesmo a grande altitude. As montanhas nuas abaixo, sem nenhuma vegetação, alternavam os tons de marrom e vermelho intenso. Pequenos povoados quebravam a monotonia da paisagem. Fiquei horas pensando na vida e esperando divisar o Lago Titicaca e finalmente, quando achei que distinguia no horizonte uma massa de água, percebi que era o oceano. Provavelmente não sobrevoaria o maior lago do mundo. O avião havia cruzado toda a América Latina em linha reta, até atingir a região do pacífico, na altura da cidade de “Pisco”. Retornou sobre as praias de águas espumantes em direção à Lima, no Peru. Porém, essas horas que pude desfrutar, enquanto simplesmente olhava pela janela são impagáveis. Comparo minhas profundas reflexões com uma experiência de “quase-morte”. Simplesmente, desloco-me de minha vida, afasto-me e observo o mundo material. Em que eu vivo. Olho de uma forma superior, aquela vida que deixei em meu país e assim, diviso melhor os detalhes que passam despercebidos. Experiências que teimo em ignorar e é claro, tomo algumas resoluções.
Minhas viagens acabam se dividindo em três etapas: Na primeira, visualizo minha vida, meus problemas, balizo coisas que são importantes, faço uma espécie de catálogo mental. Na segunda etapa (que vejo como uma etapa ascendente) misturo tudo isso com as experiências que estou vivendo, tenho insights, testo e aprovo fórmulas, confronto com os costumes e as realidades que estou observando. Na terceira etapa, já descendente, inevitavelmente tomo resoluções. E geralmente as sigo. Pois, talvez por serem frutos de um processo tão rico, marcam-me profundamente e se cristalizam dentro de mim. Tornando-se parte da minha futura vida, ou seja, do meu retorno para casa. Nessa última etapa, já sinto certa ansiedade e uma vontade de retornar para minha existência. É a expectativa do que pretendo realizar, é a vontade de transformar um pouquinho meu mundo.
E assim, fecho um circuito de auto-conhecimento que só uma viagem pode proporcionar. Muitas pessoas conseguem fazer isso sem sair de casa. Meditando, refletindo, rodeados por objetos familiares. Rotinas usuais, sem grandes alterações. Para mim isso não funciona. Preciso viajar. Sair fora do conhecido. Da famosa “zona de conforto” e observar que a vida acontece fora de casa. A vida está sempre presente em todos os lugares. Mutável, inconstante e criativa. E esse sentimento me acalma. O Sentimento de que nada é permanente e que mesmo que eu morra esse milagre estará se processando em algum lugar do globo. Não existe melhor guia para nossas ações de que o sentimento da morte. O Sentimento de que somos uma pequena parcela da criação. Isso nos nivela e destrói todo egoísmo. Esses tesouros são os mais caros que trago das viagens. Inestimáveis.
ELIANE BRITO é cronista, escritora e Advogada. eliane@rodovalho.com.br
Sobrevoava a Bolívia. Sempre peço um assento junto à janela, para poder observar alguma coisa da paisagem, ou simplesmente, olhar as nuvens que flutuam no céu. Mas, nesse dia o tempo estava aberto, céu azul, sem nenhuma nuvem, mesmo a grande altitude. As montanhas nuas abaixo, sem nenhuma vegetação, alternavam os tons de marrom e vermelho intenso. Pequenos povoados quebravam a monotonia da paisagem. Fiquei horas pensando na vida e esperando divisar o Lago Titicaca e finalmente, quando achei que distinguia no horizonte uma massa de água, percebi que era o oceano. Provavelmente não sobrevoaria o maior lago do mundo. O avião havia cruzado toda a América Latina em linha reta, até atingir a região do pacífico, na altura da cidade de “Pisco”. Retornou sobre as praias de águas espumantes em direção à Lima, no Peru. Porém, essas horas que pude desfrutar, enquanto simplesmente olhava pela janela são impagáveis. Comparo minhas profundas reflexões com uma experiência de “quase-morte”. Simplesmente, desloco-me de minha vida, afasto-me e observo o mundo material. Em que eu vivo. Olho de uma forma superior, aquela vida que deixei em meu país e assim, diviso melhor os detalhes que passam despercebidos. Experiências que teimo em ignorar e é claro, tomo algumas resoluções.
Minhas viagens acabam se dividindo em três etapas: Na primeira, visualizo minha vida, meus problemas, balizo coisas que são importantes, faço uma espécie de catálogo mental. Na segunda etapa (que vejo como uma etapa ascendente) misturo tudo isso com as experiências que estou vivendo, tenho insights, testo e aprovo fórmulas, confronto com os costumes e as realidades que estou observando. Na terceira etapa, já descendente, inevitavelmente tomo resoluções. E geralmente as sigo. Pois, talvez por serem frutos de um processo tão rico, marcam-me profundamente e se cristalizam dentro de mim. Tornando-se parte da minha futura vida, ou seja, do meu retorno para casa. Nessa última etapa, já sinto certa ansiedade e uma vontade de retornar para minha existência. É a expectativa do que pretendo realizar, é a vontade de transformar um pouquinho meu mundo.
E assim, fecho um circuito de auto-conhecimento que só uma viagem pode proporcionar. Muitas pessoas conseguem fazer isso sem sair de casa. Meditando, refletindo, rodeados por objetos familiares. Rotinas usuais, sem grandes alterações. Para mim isso não funciona. Preciso viajar. Sair fora do conhecido. Da famosa “zona de conforto” e observar que a vida acontece fora de casa. A vida está sempre presente em todos os lugares. Mutável, inconstante e criativa. E esse sentimento me acalma. O Sentimento de que nada é permanente e que mesmo que eu morra esse milagre estará se processando em algum lugar do globo. Não existe melhor guia para nossas ações de que o sentimento da morte. O Sentimento de que somos uma pequena parcela da criação. Isso nos nivela e destrói todo egoísmo. Esses tesouros são os mais caros que trago das viagens. Inestimáveis.
ELIANE BRITO é cronista, escritora e Advogada. eliane@rodovalho.com.br
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