quarta-feira, 5 de março de 2008

Paciência.


Ontem acordei com torcicolo, assim que abri os olhos já senti uma dor aguda no lado esquerdo do pescoço. Achei que iria passar com um pouco de paciência, mais, que nada. Após um banho quente, quando deixei a água cair abundantemente sobre o pescoço, piorou. Latejava e eu sentia como se uma agulha estivesse me penetrando. Do lado que doía, fiquei até surda. Não tinha saída, resolvi ir ao médico. Prescrição. Relaxante muscular, analgésicos, compressas... Voltei pra casa, tomei um coquetel de remédio, cancelei todos os compromissos e dormi por algumas horas.
Quando acordei estava realmente muito mal-humorada. O dia interminável se estendia pela frente e eu não podia e não queria fazer nada na rua naquele estado. Uma leve depressão desceu sobre minha cabeça como uma nuvem. Liguei o computador, abri o MSN e não tinha nenhuma amiga conectada, ou pelo menos, alguém com quem eu quisesse conversar. Meu mal-humor só aumentava. Naveguei por uns sites esotéricos, li meu horóscopo, que alertava, “marte estava em meu signo, causando transtornos e mudanças”. Ahã. Já havia percebido.
Atingindo o auge do desespero, resolvi jogar paciência no computador. Pedi que distribuísse as cartas e comecei. Modéstia a parte, eu sou boa nisso. Adoro quando “melhoro meu tempo” e no final do jogo, cai aquela cascata de cartas na tela. Mas, naquele dia, até o computador estava me sacaneando. Só saiam cartas ruins, não sei se eram os remédios, ou minha cabeça que latejava, mas, eu não conseguia ganhar!
Quando abria o jogo e via que as cartas não eram boas, já pedia para distribuir novamente. Naquele estado de espírito depressivo comecei a pensar que a vida também podia ser assim. Quando observássemos as cartas na mesa e o jogo não estivesse bom, como seria bom dar apenas um clique e pedir pra distribuírem novamente. Até que saíssem dois ases, ou quem sabe alguns reis, encabeçando as colunas. Aí sim valeria a pena.
Se a vida fosse um jogo de paciência, não valeria desistir. Tínhamos que pegar as cartas ruins e tentarmos trabalhar com elas. Alguns desistem, saem do jogo, como aquele ator, Hugh Hefner. No meu jogo de paciência, desenvolvi uma técnica, quando o jogo está ruim, começo a subir as cartas menores, subo o que eu posso, para ver se libero alguma carta melhor que está escondida ali embaixo daqueles montinhos.
Outro cuidado que eu tomo é na hora de comprar uma carta. Pra se colocar cartas novas no jogo é preciso analisar bem, se não estamos deixando de utilizar uma carta que já está ali, mas, que apenas não enxergamos, durante o desenrolar das jogadas. Se você compra errado... o computador é implacável! E a vida também...
Mas, como fazer isso na vida? Como subir as cartas? Comprar certo? Vencer o jogo! Simples. Precisamos reinventar. Pegar as nossas vidas, mudar as coisas de lugar, fazer diferente. Usar uma roupa colorida, fazer novos amigos, sair de peito aberto pro mundo, comer comidas diferentes, viajar. E assim, liberamos o que temos de melhor. Mas, desistir do jogo? Nunca. Sempre pode ter um ás escondido por ali e isso faz toda a diferença.

Eliane Brito é escritora e advogada.


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